O que é o Pterígio? Fatores de Risco, Sintomas e Tratamentos Modernos
- Dr. Ever Rodriguez
- 30 de jul. de 2024
- 9 min de leitura
Atualizado: 18 de abr.
O Pterígio é uma das alterações oculares mais comuns, especialmente em países tropicais. Muitas vezes confundido com a catarata, ele se manifesta como uma "pelezinha" que cresce sobre a parte colorida do olho, causando desconforto estético e físico. Mas você sabia que a exposição solar excessiva é a principal causa dessa condição?
Neste artigo baseado em evidencia cientifica, explicaremos: O que é Pterígio, quais os riscos para a sua visão e como os avanços da oftalmologia moderna permitem um tratamento seguro e definitivo.

O que é o Pterígio?
O Pterígio é uma doença ocular benigna caracterizada pelo crescimento anômalo de um tecido fibrovascular sobre a córnea. Esse crescimento geralmente se inicia no canto interno do olho (próximo ao nariz) e avança em direção ao centro da córnea, formando uma lesão de aspecto triangular (Sarkar P. et al., 2023). Apesar de ser classificado clinicamente como benigno e, muitas vezes, indolor em seus estágios iniciais, o pterígio pode apresentar um comportamento agressivo, induzindo astigmatismo irregular e, ocasionalmente, ameaçando a visão ao invadir ou obstruir o eixo visual (Shahraki T. et al., 2021).
Do ponto de vista epidemiológico, o Pterígio é significativamente mais comum na chamada "zona de pterígio", uma extensa faixa geográfica que compreende as latitudes de 40º ao norte e ao sul da Linha do Equador [Ribeiro L. et al., 2011]. Nessas regiões, a prevalência do Pterígio é alarmante, podendo chegar a até 22% da população, um índice intimamente associado à maior e mais direta exposição crônica à radiação ultravioleta (UV) [Veena M. et al., 2013].
O que causa o Pterígio? Fatores de Risco
Os principais fatores de risco para o desenvolvimento de Pterígio incluem (Rezvan F. et al., 2018):
Exposição à Luz Ultravioleta (UV): A exposição prolongada à luz solar, especialmente sem proteção adequada, é um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de Pterígio. A radiação UV causa danos diretos ao DNA do tecido conjuntival e das células límbicas (Sarkar P. et al., 2023).
Idade: A prevalência de pterígio aumenta com a idade (especialmente acima dos 60 anos) [Liu L, et al. 2013]. Pessoas mais idosas têm maior probabilidade de desenvolver a condição devido à exposição acumulada à luz solar ao longo dos anos.
Gênero: Estudos indicam uma incidência ligeiramente maior em homens, frequentemente associada a uma maior exposição ocupacional ao ar livre em comparação às mulheres [Liu L, et al. 2013].
Clima e Localização Geográfica: O Pterígio é predominante em regiões próximas ao equador (latitudes de 40º N a 40º S). Ambientes quentes, secos, ventosos e com poeira atuam como irritantes crônicos que favorecem a inflamação [Shah S. et al., 2016].
Fatores Ocupacionais: Pessoas que trabalham ao ar livre, como agricultores, pescadores e trabalhadores da construção civil possuem risco elevado devido à maior exposição à Luz Ultravioleta (UV) [Tano T. et al., 2013]
Quais são os sinais e sintomas mais comuns do Pterígio e como eles se manifestam?
Muitas vezes, o Pterígio se desenvolve silenciosamente, mas à medida que o tecido fibrovascular avança sobre a córnea, ele desencadeia uma série de alterações anatômicas e funcionais. Os principais sinais e sintomas, incluem:
Vermelhidão e Inflamação: O pterígio é um tecido altamente vascularizado. Essa rede de vasos anômalos causa vermelhidão persistente (hiperemia) e uma sensação de irritação ocular crônica (Shahraki T. et al., 2021), resultando em desconforto ocular.
Sensação de Corpo Estranho: Muitos pacientes relatam sentir como se houvesse algo preso no olho, semelhante a uma sensação de areia ou um objeto estranho, causando irritação constante.
Secura e Lacrimejamento (Alteração do Filme Lacrimal): O relevo anatômico do Pterígio rompe a distribuição homogênea da lágrima. Estudos demonstram que pacientes com pterígio apresentam uma redução significativa no tempo de ruptura do filme lacrimal (BUT), gerando ressecamento severo [Chang J. et al., 2024]. Em alguns casos, o olho pode produzir um lacrimejamento excessivo (epífora) como mecanismo de defesa.
Visão Embaçada: Em casos mais graves, o Pterígio pode crescer sobre a córnea, interferindo na visão e causando visão turva ou distorcida. Isso ocorre porque o crescimento pode afetar a forma da córnea, levando ao desenvolvimento de astigmatismo ou outras irregularidades na superfície ocular.
Coceira e Ardor: A inflamação local libera mediadores químicos (como a histamina) que provocam coceira persistente e ardor. É fundamental evitar o ato de coçar os olhos, pois o trauma mecânico pode piorar a irritação e causar danos adicionais.

Dificuldades com as Lentes de Contato: Se você usa lentes de contato, um Pterígio em crescimento pode tornar desconfortável ou até impossível usá-las devido à irregularidade na superfície ocular.
Principais Diagnósticos Diferenciais do Pterígio
É importante considerar várias condições que podem se parecer com o Pterígio. A seguir, apresentamos os principais diagnósticos diferenciais:
Neoplasia Escamosa da Superfície Ocular (OSSN):
A OSSN é um espectro de doenças que vai desde displasias leves até o Carcinoma de Células Escamosas de Conjuntiva (CEC) invasivo. Esta é a condição mais crítica a ser descartada, pois é um tumor maligno que pode ser visualmente indistinguível de um pterígio em estágios iniciais.
Relação com o Pterígio: Ambas compartilham a radiação ultravioleta (UV) como principal fator de risco.
Dados Epidemiológicos: Estudos histopatológicos de pterígios removidos cirurgicamente revelam taxas de malignidade oculta de 2% na Flórida e até 9,8% na Austrália, dependendo da incidência de radiação UV local [Shahraki T. et al., 2021)].

Carcinoma de Células Escamosas de Conjuntiva Pannus Corneano
Diferente do pterígio, o Pannus é um crescimento fibrovascular periférico que invade a córnea de forma mais difusa, geralmente associado a processos inflamatórios crônicos, como o uso inadequado de lentes de contato, tracoma ou quadros severos de olho seco.
Dermóide Limbal:
Uma lesão congênita (presente ao nascimento) que se manifesta como uma massa esbranquiçada e sólida na borda da córnea (limbo).
Deficiência de Células-Tronco Límbicas:
Ocorre quando as células responsáveis pela renovação da superfície da córnea falham. Isso leva à "conjuntivalização" da córnea, onde o tecido da conjuntiva invade a área transparente, mimetizando um pterígio que avança de forma circular ou irregular [Karakus S. et al., 2026]
Simbléfaro:
Adesões anormais entre a conjuntiva e a córnea, geralmente resultantes de lesões químicas, térmicas ou mecânicas.
Esses diagnósticos diferenciais são essenciais para evitar tratamentos inadequados. Por exemplo, uma técnica cirúrgica simples para pterígio seria insuficiente para tratar um Carcinoma de Células Escamosas de Conjuntiva (CEC), podendo inclusive espalhar células malignas. A avaliação detalhada, com tecnologia de ponta como OCT de Segmento Anterior e Cirurgia com técnica No-Touch (Shields, C. L., & Shields, J. A. 2019) são as únicas garantias de um plano de tratamento eficaz e seguro.
Tratamentos: Abordagens Modernas para o Pterígio
O manejo do Pterígio evoluiu drasticamente na última década. Se antigamente a cirurgia era vista com receio devido às altas taxas de retorno (recidiva), hoje, com o advento de técnicas de transplante e adesivos biológicos, o tratamento oferece segurança, estética e resultados definitivos.
A escolha da abordagem depende da classificação da lesão, da taxa de progressão e do impacto na qualidade de vida do paciente.
1. Tratamento Conservador: Controle e Conforto
Quando o Pterígio é pequeno, assintomático e não ameaça o eixo visual, o foco é a estabilização e o alívio do desconforto.
Colirios e Pomadas Lubrificantes: O uso de lágrimas artificiais sem conservantes é fundamental para restaurar a estabilidade do filme lacrimal, que é frequentemente rompida pela irregularidade da lesão. Isso reduz a sensação de corpo estranho e o lacrimejamento reflexo [1, 2].
Terapia Anti-inflamatória Tópica: Em episódios de inflamação aguda, o médico pode prescrever colírios corticoides de baixa penetração para reduzir o edema e a hiperemia. Nota: O uso deve ser estritamente controlado por um oftalmologista devido ao risco de catarata e glaucoma secundário.
Bloqueio de Radiação UV: Esta é a medida preventiva mais eficaz. O uso de óculos de sol com proteção 100% UVA/UVB e chapéus é mandatório para retardar a proliferação celular e a angiogênese induzida pela luz solar [Singh SK., 2017].
2. Tratamento Cirúrgico: A Busca pela Cura Definitiva
A cirurgia é indicada quando há crescimento progressivo, indução de astigmatismo, prejuízo estético ou inflamação crônica refratária ao tratamento clínico. As técnicas modernas visam não apenas remover o Pterígio, mas reconstruir a arquitetura da superfície ocular.
Excisão Cirúrgica com Autoenxerto Conjuntival:
Considerada o padrão-ouro devido à sua baixa taxa de recorrência, essa técnica envolve a remoção do pterígio e o enxerto de uma porção saudável da conjuntiva.
Excisão com Enxerto de Membrana Amniótica:
Em certos casos, a membrana amniótica pode ser usada como enxerto, ajudando na cicatrização e na redução da inflamação.
2.1. Excisão Cirúrgica com Transplante Autólogo de Conjuntiva (Autoenxerto)
Descrita originalmente por Lewallen S. em 1985, esta técnica é amplamente considerada o padrão-ouro. Consiste na remoção do Pterígio e na cobertura da esclera nua com um enxerto de conjuntiva saudável do próprio paciente (geralmente da região superior). [Sarkar P. et al., 2023].
Eficácia: Estudos mostram taxas de recorrência tão baixas quanto 5,3%, embora em regiões tropicais (com alta incidência UV) esses números possam variar entre 20% e 30% nos casos de pterígio recorrente [Ti SE, Chee SP. et al., 2000].
Inovação com Cola de Fibrina: O uso de adesivos biológicos (cola de fibrina) em substituição às suturas tem demonstrado reduzir significativamente o tempo cirúrgico e aumentar o conforto pós-operatório do paciente, minimizando a inflamação local.
2.2. Excisão Cirúrgica com Transplante Autólogo de Limbo conjuntival
Esta técnica aprimora o autoenxerto convencional ao incluir aproximadamente 0,5 mm de tecido límbico no enxerto.
Mecanismo: Ao transplantar células-tronco límbicas, restaura-se a barreira fisiológica entre a conjuntiva e a córnea [Gris O. et al., Ophthalmology. 2000].
Resultados: As taxas de recorrência são excepcionalmente baixas, variando de 1% a 2,5% em mãos experientes [Sarkar P. et al., 2023].
2.3. Excisão com Enxerto de Membrana Amniótica
Utilizada como um curativo biológico em casos de Pterígios muito extensos ou recidivantes onde não há conjuntiva doadora suficiente.
Propriedades: A membrana amniótica possui fatores anti-inflamatórios e inibidores do fator de crescimento beta (TGF-beta), facilitando a epitelização [Essex RW. et al,. 2004].
Resultados: Embora proteja a superfície ocular, as taxas de recorrência são superiores ao autoenxerto conjuntival, podendo chegar a 37,5% em casos de pterígios recorrentes.
2.4. Técnica P.E.R.F.E.C.T. (Hirst)
O acrônimo para Pterygium Extended Removal Followed by Extended Conjunctival Transplantation, desenvolvida por Lawrence Hirst em 2017, busca a "recorrência zero".
Diferencial: Envolve uma excisão extensa não apenas da conjuntiva, mas de toda a Cápsula de Tenon subjacente (até 10 mm além das bordas), seguida de um enxerto conjuntival de grandes proporções.
Resultados: Estudos reportam taxas de recorrência próximas a 0% e resultados estéticos excelentes, com a área nasal tornando-se indistinguível de um olho normal após 6 meses.
3. Tratamentos Adjuvantes:
Para casos de alto risco de recidiva, a cirurgia pode ser combinada com agentes químicos:
Mitomicina C (MMC): Inibe a proliferação de fibroblastos. Embora eficaz (reduzindo a recidiva para 2,3%), exige cautela extrema devido ao risco de afinamento escleral e necrose tecidual se usada em doses inadequadas [Sarkar P. et al., 2023].
EYECO Oftalmologia: Referência no Tratamento do Pterígio
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Protocolos de Segurança Oncológica: Como o Pterígio pode ocultar lesões malignas (Neoplasia Escamosa da Superfície Ocular - OSSN), realizamos rotineiramente a análise anatomopatológica (biópsia) das lesões removidas, garantindo tranquilidade total aos nossos pacientes.
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Responsável: Dr. Ever Ernesto Caso Rodriguez | CRM-SP: 160.376
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